Friday, May 19, 2006

Sara Forestier - Hell (Hell, 2005)
Novamente me pego pensando sobre o que levaria uma pessoa a distanciar-se da realidade. Teriam alguns de nós, seres humanos, uma espécie de “predisposição” a isso? Algum truque genético, onde por ironia do destino fossemos atraídos pela busca incessante de novas descobertas, que por sua vez só nos fazem seguir por caminhos tortuosos atrás dessa infinidade de sensações efêmeras?

As cores, as luzes, os sons, os cheiros, os sabores. Um mar de novidades pronto para ser desbravado, onde cada gesto representa um passo dado nesse terreno perigoso. Estaria eu adentrando nesse terreno ao levantar questionamentos tão delicados?

Teria eu me tornado extremamente cruel e realista ao afirmar que admiro mais alguém capaz de encostar o frio cano de um revólver na cabeça e apertar lentamente o gatilho, transformando anos, vivências, dores e alegrias em milhões de pedaços, ao invés daqueles que vagam pela terra como vivos, mas estando mortos por dentro.

Que não tenham a coragem de cortar as veias ou colocar as balas no tambor, mas que tenham a de perceber esse processo de degradação que se mascara como curiosidade ou diversão e encarar a realidade cruel. Pelo visto é mais fácil aplicar-se morfina, ingerir litros de vodka, cheirar carreiras quilométricas ou fazer sexo sem amor a encarar a verdade em frente ao espelho.

Ou quem sabe transportar essa dor escondida e amenizada pelas drogas para as páginas de um livro como fez Lolita Pille ao publicar seu primeiro romance, Hell Paris 75016, aos 20 anos.

Hell. Nada mais sugestivo para intitular a trajetória de uma jovem parisiense por um inferno repleto pelo brilho das grifes e da riqueza, de amizades fúteis, de drogas e álcool, do sexo voraz e desenfreado que só reflete a busca pelo amor. O filme baseado no romance de Lolita Pille - sucesso literário na França e agora no Brasil, tem estréia prevista para julho nos cinemas brasileiros.

Realidade ou ficção, alter ego ou não, pouco importa. São mundos que se misturam como as tintas na paleta de um pintor, de tal modo que quase não existe distinção. Mas cabe lembrar que nem todas as realidades são como a da personagem. Mas a degradação é a mesma, apenas coberta por uma camada de verniz, separada pelo glamour irreal.

A questão que permeia o romance Hell – Paris 75016 e talvez a grande questão dessa divagação toda, seja a de encontrar respostas para o comportamento assumido por certas pessoas diante da vida. Será que existem realmente motivos? Como explicar tal comportamento - negado pela grande maioria dos que encontram-se envolvidos?

Por mais que eu teça comentários pessoais, procure fundamentos científicos, filosóficos, psicológicos, financeiros, existenciais ou de qualquer espécie, só consigo ver um vazio imenso. Dor. Apenas dor.
Avec le temps
Written by Léo Ferré
Performed by Léo Ferré
Avec le temps...
Avec le temps, va, tout s'en va
On oublie le visage et l'on oublie la voix
Le coeur, quand ça bat plus, c'est pas la peine d'aller
Chercher plus loin, faut laisser faire et c'est très bien
Avec le temps...
Avec le temps, va, tout s'en va
L'autre qu'on adorait, qu'on cherchait sous la pluie
L'autre qu'on devinait au détour d'un regard
Entre les mots, entre les lignes et sous le fard
D'un serment maquillé qui s'en va faire sa nuit
Avec le temps tout s'évanouit
Avec le temps...
Avec le temps, va, tout s'en va
Mêm' les plus chouett's souv'nirs ça t'as un' de ces gueules
A la Gal'rie j'farfouille dans les rayons d'la mort
Le samedi soir quand la tendresse s'en va tout seule
Avec le temps...
Avec le temps, va, tout s'en va
L'autre à qui l'on croyait pour un rhume, pour un rien
L'autre à qui l'on donnait du vent et des bijoux
Pour qui l'on eût vendu son âme pour quelques sous
Devant quoi l'on s'traînait comme traînent les chiens
Avec le temps, va, tout va bien
Avec le temps...
Avec le temps, va, tout s'en va
On oublie les passions et l'on oublie les voix
Qui vous disaient tout bas les mots des pauvres gens
Ne rentre pas trop tard, surtout ne prends pas froid
Avec le temps...
Avec le temps, va, tout s'en va
Et l'on se sent blanchi comme un cheval fourbu
Et l'on se sent glacé dans un lit de hasard
Et l'on se sent tout seul peut-être mais peinard
Et l'on se sent floué par les années perdues
Alors vraiment
Avec le temps on n'aime plus.

Monday, May 15, 2006

Isabelle Adjani - Camille Claudel (Camille Claudel, 1988)
"Il y a tourjours quelque chose d´absent qui me tourmente."

“Há sempre algo de ausente que me atormenta”. Porque a ausência dói mais que tudo? Seria mais fácil enlouquecer como fez a autora da frase, Camille Claudel?
Porque o ser humano se agarra tão ferreamente no que nunca se concretizará? Talvez a necessidade de concretizar o sofrimento seja o maior ganho em tal situação, como forma de justificar a dor. É mais fácil culpar o outro pelo sofrimento ao invés de culpar o espelho.
Não existe ilusão a não ser aquela criada por nossa própria vontade, como não existe a posse de algo em si, só a idéia da posse.
Sempre me pergunto como seria enlouquecer. Seria como estar drogado? Ou quem sabe como estar em um universo paralelo? Quem sabe ainda uma espécie de pós-vida?
Enlouquecer é soltar as amarras. É pular do abismo. Rasgar as roupas e jogar-se rumo ao infinito. Esquecer os padrões, as normas, as etiquetas. Voltar aos primórdios. Perder a noção, o prumo. Ou quem sabe ainda, finalmente encontrar o rumo e achar seu próprio “eu” no final do túnel.
Às vezes penso: o que eu não daria por um momento de loucura nesse mundo dito como racional? Acredito que os loucos pelo menos são mais verdadeiros que nós. Não fingem que amam, não dissimulam olhares, não jogam. As histórias que eles criam devem ser mais reais que as historias que vivemos, cheias de emoções plastificadas e sentimentos fugazes.
Tudo que queria nessa madrugada era enlouquecer e ser mais verdadeiro comigo. Queria poder arder em minha própria chama. Queria encontrar meu “eu” perdido nessa estrada. Quem sabe descobrir o que perdi e calar essa ausência que me atormenta.